31/01/2018 O lado do TAG que você só conhece quando tem TAG

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Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). A este ponto da vida, você já deve ter ouvido falar dele ao menos uma vez. O Facebook, o Whatsapp e todas as redes sociais estão cheias de postagens falando sobre a Ansiedade e sobre como se sente uma pessoa com a doença, mas vou fazer uma breve explicação clínica retirada do site Minha Vida (porque não sou a médica aqui, sou a paciente) só para não deixar nenhuma dúvida.

“O principal sintoma do transtorno de ansiedade generalizada é a presença quase permanente de preocupação ou tensão, mesmo quando há poucos motivos ou quando não existe motivo algum para isso. As preocupações parecem passar de um problema para outro, como questões familiares, amorosas, relacionadas ao trabalho, à saúde ou de várias outras origens. Mesmo quando as pessoas com esse transtorno têm consciência de que suas preocupações ou medos são mais fortes do que o necessário, elas ainda têm dificuldade para controlar essas reações.”

Mas há um ponto importantíssimo a respeito do TAG que as pessoas sem a doença não conseguem imaginar. O transtorno não se manifesta apenas quando coisas ruins acontecem nas nossas vidas. Não nos sentimos mal somente na véspera de uma prova, ou na sala de espera para uma consulta com o dentista, ou quando alguém demora para responder nossas mensagens (ou aguardando o atendimento no banco – eu). O lado mais babaca do TAG é que ele se manifesta nos momentos bons também.

Para terem uma ideia de como é realmente um transtorno, vou falar um pouco sobre algo que gosto muito: Doramas (também conhecidos como k-dramas ou dramas coreanos, basicamente, séries coreanas). Sou apaixonada por doramas e, se pudesse, passava o dia inteiro assistindo. Mas não é só a falta de tempo que me impede. Também tenho a ansiedade ali, na espreita, esperando para arruinar meus momentos de prazer.  Darei o exemplo de algumas situações que são normais para qualquer fã de série, mas podem ser completamente diferentes na vida de uma pessoa com TAG:

 

1. Vergonha alheia

Dorama: Strong Woman Do Bong Soon

Sabe quando um personagem faz algo muito vergonhoso, como se expor em público, ou contar aquela piada sem-graça na frente de alguém importante, e que normalmente te faria morrer de rir da cara e da situação dele? Pois é… Eu tenho pânico desses momentos. Pânico! Quando o personagem faz algo assim, eu normalmente tiro o som e assisto a cena só com legenda (ou sem legenda também, se for algo muito vergonhoso), porque parece que isso reduz um pouco o impacto da situação pra mim e me permite passar pelo momento sem ter uma crise. Mas se a vergonha alheia for muito forte, ou eu estiver envolvida demais com a série para conseguir ignorar, então é necessário pausar o episódio e ir fazer outra coisa pra me distrair até me considerar psicologicamente capaz de assistir aquilo. Em casos extremos, pulo a cena sem dó.

 

2.  Um episódio por semana

Dorama: Weightlifting Fairy Kim Bok Joo

Você, fã psicologicamente saudável, deve estar acostumado a esperar uma semana para assistir o próximo episódio daquela série que adora. Eu sou psicologicamente incapaz de fazer isso. Quando gosto muito de um dorama, ter que aguardar tanto tempo me causa tanta dor, tanto sofrimento físico, que, das duas uma: ou aguardo terminarem de lançar todos os episódios e assisto tudo de uma vez, ou acabo perdendo o interesse pelo dorama e só volto a assistir muito tempo depois (às vezes até esqueço de assistir). Não é voluntário. É como se fosse uma defesa do meu organismo contra a dor.

 

3. Cenas muito tristes/tensas

Dorama: Suspicious Partner

Você está assistindo a um dos episódios mais tensos da sua série preferida, e não consegue desgrudar os olhos da tela nem por um segundo, querendo saber logo o que vai acontecer. Para mim, quando começa a ficar muito tenso, pauso o episódio, abro o navegador e vou conversar com os amigos no Facebook, assistir vídeos de k-pop no YouTube, ou até dar um passeio no mercado e comprar algumas coisas que estou precisando. Já aconteceu de demorar mais de 5 dias para terminar de assistir um único episódio porque era tenso demais.

 

4. Cenas do próximo capítulo

Dorama: Goblin

No final de cada episódio, normalmente eles fazem um compilado de cenas importantes do próximo episódio, para aflorar a sua curiosidade e despertar seu interesse. Eu não vejo as cenas do próximo episódio. Elas fazem surgir um turbilhão de teorias e especulações na minha cabeça que chegam a me deixar com falta de ar. E se aliado à situação de um episódio por semana, esse pequeno e inofensivo resumo pode até despertar uma crise de ansiedade em mim (ou me fazer só criar coragem para assistir o próximo episódio 3 meses depois – Goblin).

Para vocês terem uma ideia, estou VICIADA  em um dorama chamado Just Between Lovers e fui capaz de assistir 12 episódios sem problemas. Estava até aguardando os episódios semanais, comportadíssima. Então caí na asneira de assistir o “trailer” do 13º episódio no canal da transmissora e… O que vi ali me deixou tão ansiosa, me fez tão mal, que agora vou esperar terminarem de lançar toda a série para…

 

5. Spoiler! Spoiler!

Você deve odiar essa palavra, né? Todo fã de série tem pesadelos só de pensar na possibilidade de algum imbecil resolver contar os pontos importantes do próximo episódio. Eu busco os spoilers no Google. Isso mesmo que você leu. Quando começo a me interessar muito por um dorama, vou lá e pesquiso o desenrolar da história. Porque isso me deixa prevenida para situações que possam agir como gatilho da minha ansiedade. O personagem X morre? Então eu já sei que ele vai morrer e tenho tempo de me preparar psicologicamente para ver isso (ou posso optar por não assistir o dorama, caso não me considere capaz de passar por isso sem sofrer). Comecei a shippar (termo usado para o ato de querer que dois personagens se envolvam amorosamente) um casal? Vou lá e pesquiso para saber se vai rolar alguma coisa entre eles mesmo, ou se vão ficar só na enrolação.

Ah, Carla, mas qual é a diferença entre Spoiler e as cenas dos próximos capítulos? O Spoiler me explica o que vai acontecer de fato, e não mostra só um pedacinho, ou uma cena aleatória, só pra me deixar ainda mais confusa e ansiosa.

 

6. Enrolação…

Dorama: Age of Youth

Imagina que os seus personagens preferidos da série dão sinais de que são interessados um no outro o tempo todo, mas nunca rola nada entre eles de verdade (ou demora mais de meia série para rolar). Posso citar uma quantidade infindável de exemplos, como Arquivo X, Bones, Doctor Who, House, Arrow, Once Upon a Time, entre outras, milhares de outras. NÃO ROLA. Sério, gente. Eu já fui uma pessoa saudável e capaz de aguentar toda essa expectativa frustrada, hoje em dia não consigo mais. Rapaz, se você gosta daquela pessoa e ela gosta de você, PARA DE ENROLAR E CRIAR DIFICULDADE E FICA JUNTO LOGO PELAMORDEDEUS.

 

Em resumo, todas essas situações podem despertar uma crise de ansiedade em mim. E você sabe o que é uma crise de ansiedade? Taquicardia, falta de ar, dor no peito e na garganta, enjoo de estômago, diarreia e tonteira. Não é só aquela ansiedade que você tem ao criar expectativa com alguma coisa, é uma dor física! Enquanto uma pessoa psicologicamente saudável pega a sua pipoquinha (ou salgadinho, ou cervejinha, como preferir) e senta para assistir suas séries bem feliz, fazer maratona e passar o final de semana inteiro matando 3 temporadas de uma vez, a pessoa com ansiedade passa por todo esse sofrimento aí.

Então, neste ponto, você deve estar se perguntando: “Por que você assiste esses doramas, se eles te fazem tão mal?”. Porque eles me fazem bem também. Porque a ansiedade não vai deixar de existir só por parar de assistir meus doramas, pelo contrário, ela vai começar a se manifestar em outras coisas. Eu paro com os doramas, então começo a ficar ansiosa por causa de música; paro com a música, e começo a ficar ansiosa por sair na rua; paro de sair na rua e começo a ficar ansiosa por falar com meus familiares; paro de falar com meus familiares e, quando percebo, estou trancada dentro do meu quarto desenvolvendo uma Síndrome do Pânico. Então a gente luta contra. A gente tenta não ficar paranoico. Reúne todas as forças que tem e tenta! Porque cada episódio dos meus doramas que consigo terminar de assistir é uma vitória pra mim, é uma sensação de que a ansiedade não venceu dessa vez, mesmo que eu tenha levado mais de meses para encerrar a batalha.

Portanto, amigos, antes de julgarem uma pessoa com Transtorno de Ansiedade por não conseguir fazer direito nem as coisas que ela gosta, considere todas essas situações acima. Como o simples fato de assistir uma série legal pode desestruturar a vida de um paciente com TAG, assim como infinitas situações cotidianas, como falar ao telefone, conversar com o crush, ir à balada com os amigos, fazer uma viagem. O TAG é uma doença que, assim como a depressão, não escolhe etnia, não escolhe status social, não escolhe poder aquisitivo, e também não escolhe momento. Ela simplesmente está lá e a gente luta 24 horas por dia para tentar superá-la. Sejam pacientes.

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