19/04/2019 Deixa as pessoas se divertirem

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É incrível como as nossas experiências moldam a nossa visão de mundo e a forma como tratamos outras pessoas.

Li uma notícia sobre fãs acampando na fila para um show com mais de um mês de antecedência e tive a felicidade de ler, também, os comentários. A grande maioria de pessoas dizendo coisas como “Vão estudar e contribuir para a sociedade, bando de vagabundos!”, “Se fosse o ENEM, eles perdiam a hora”, “Estudar que é bom, nada”, “Depois ainda querem exigir direitos”.

A princípio, confesso que os comentários me irritaram. Mas depois de refletir um pouco, comecei a me sentir muito bem comigo mesma. Afinal, já fui assim. Já julguei mal as pessoas pelos seus gostos, pelos seus hobbies, pela forma de pensar diferente da minha. Mas, ao começar a gostar, eu mesma, de coisas completamente diferentes daquelas as quais havia me apegado ao longo dos anos, e começar a conviver com uma cultura diferente, pessoas diferentes, e um modo de pensar totalmente novo, aprendi a ser mais compreensiva com as pessoas. Ninguém é igual e os gostos inofensivos de uma pessoa não a definem em todos os aspectos da vida dela.

Só porque uma menina passa dias na fila de um show, não significa que ela seja má aluna, pouco inteligente, ou fútil. Significa apenas que ela gosta tanto daquele artista, que está disposta a sacrificar várias coisas apenas para assistir ao show dele. O que tem de errado nisso? Ou melhor… O que você tem a ver com isso?

“Ela devia estar estudando, isso sim”, diz a pessoa que compartilhou a postagem de um morador de rua que conseguiu passar no vestibular através de livros encontrados no lixo, mas não acredita que uma aluna do ensino médio seja capaz de estudar dentro de uma barraca de acampamento, e acha que o adolescente pobre da favela não devia estar na escola porque “é bandido”.

“Se fosse o ENEM, eles perdiam a hora” O ENEM teve, em 2018, aproximadamente 5,5 milhões de inscritos. Desses, menos de 3% se atrasaram para as provas. Vamos colocar isso em gráfico para ficar mais fácil de entender:

Está mais que na hora de pararmos de usar o atraso no ENEM como sinônimo para juventude irresponsável. Mas se o dono do comentário estiver disposto a fazer o censo da fila do show para saber quantas daquelas pessoas se atrasaram para o Exame Nacional do Ensino Médio, ficarei feliz em ser informada do resultado.

“Depois ainda querem exigir direitos”. Por favor, meu senhor, me mostre a Lei que remove automaticamente os direitos de cidadão de uma pessoa a partir do momento que ela se torna fã fervorosa de algo, porque nós estamos precisando urgentemente remover o direito de voto de grande parte da população que anda virando fã de político e sacrificando os direitos alheios no processo.

Brincadeiras à parte, eu me sinto realmente aliviada por ter me despido dos preconceitos e abraçado as diferenças. Porque num mundo onde o ódio se espalha como doença entre as pessoas, ser parte da cura não é apenas uma honra, é uma obrigação.

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