29/09/2007 Brincadeiras de criança

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Eu estava tomando banho agora há pouco, quando comecei a me lembrar das brincadeiras que eu e meus amigos brincávamos quando éramos crianças.
Isso pode soar um pouco estranho para vocês, mas eu só comecei a brincar de verdade depois dos 10 anos. Até lá, eu passava a maior parte do tempo entre tratamentos médicos, cirurgias e a companhia dos adultos da família (o que me rendeu uma verdadeira paixão pelo ouvir histórias).Lá pelos meus 10 anos, firmei amizade com os meninos (e duas meninas) do lugar onde minha madrinha mora. Um deles era vizinho dela, os outros moravam bem perto dali, todos na mesma rua. E, por algum motivo misterioso (talvez por ser 2 anos mais velha do que todos eles), acabei me tornando uma espécie de “base“. Todas as brincadeiras aconteciam no quintal da minha casa (casa da minha madrinha naquela época), ou em frente à ela, e eu acabava coordenando tudo.
Não nos contentávamos com as brincadeiras normais. Piques, futebol, pipa e até o vídeo-game não eram grandes atrativos para nós. Nós queríamos aventura. Queríamos algo que nos fizesse imaginar, criar, viver uma história.

Uma vez, já na idade adulta (lá pelos meus 22/23 anos), eu estava no ICQ (siiim, naquela época o MSN ainda nem era tão famoso assim XD) conversando com um amigo e ele disse “O pessoal vem aqui pra casa jogar RPG. Quer jogar também?“. Sem muito o que perder, imediatamente rumei para a casa do ser – que se auto-denomina Orochi – e já cheguei dizendo “Olha, tenho uma vaga idéia do que seja RPG. Vocês precisam me ensinar tudo“. Mas, para a surpresa deles – e muito mais para a minha – não foi preciso me ensinar muita coisa. Na verdade, o pequeno grupo de pessoas em volta da mesa naquela noite, até hoje diz que eu dominei completamente o jogo e, às 2 horas da manhã, joguei muito melhor do que a maioria deles seria capaz de jogar num horário em que ninguém estivesse bêbado de sono. XD
Mas como eu consegui essa façanha? Porque, na verdade, desde os meus 10 anos de idade, sempre tinha jogado RPG, só não sabia que se tratava disso.

Como assim, Carla?
Como eu disse ali em cima, nós não nos contentávamos com as brincadeiras normais. Então, passamos a inventar nossas próprias brincadeiras.
Na verdade, a coisa toda acontecia da seguinte forma:
Eu criava a história base, o cenário e o contexto, cada um dos meus amigos assumia uma função e uma personalidade dentro daquele cenário inicial e, então, desenvolvíamos uma história na qual cada um representava o seu personagem. (e crianças tem uma facilidade inimaginável para interpretação – elas não têm vergonha de brincar)
Eu sempre assumia o papel do vilão e daquelas pessoas com as quais os meus amigos iriam interagir durante a história. (“RPGísticamente” falando, eu mestrava).

E nessa de inventar brincadeiras, chegamos a criar algumas que eram nossas preferidas:

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Assombrada Mal Casa

Uma observação interessante a ser feita aqui, é sobre o título: era mania nossa inverter a ordem das palavras no nome das brincadeiras.

Cenário inicial resumido:
As crianças estão brincando na rua de suas casas, quando de repente tudo fica escuro. Um blackout! No instante seguinte, elas olham para o chão e percebem que estão pisando sobre o universo, com suas estrelas brilhantes e todos os planetas, como se caminhassem pela própria Via Láctea. Aos poucos, elas perdem a consciência e acordam num lugar totalmente diferente.
Trata-se do um imenso jardim de uma mansão velha e acabada, com ares de casa mal assombrada.
Aí começa a história.

Uma coisa que nunca esqueço sobre essa brincadeira, era o elevador. A mansão como eles viam naquele momento, na verdade, se tratava de uma das muitas dimensões de uma espécie de lapso temporal. É complicado explicar aqui, mas era como se aquela casa, e aquele jardim, daquele jeito, fossem retrato daquele lugar numa determinada época.
No jardim da mansão tinha um elevador. Ao entrar ali, o viajante deveria dizer Quero subir para baixo, para descer, ou Quero descer para cima para subir. O elevador viajava numa velocidade impossível de se acompanhar e poderia parar em qualquer andar (dos milhares de andares) a qualquer momento, revelando então uma outra realidade. Dependendo do número do andar, a mansão podia ter um aspecto ótimo, de uma casa bonita e aconchegante, com flores no jardim e uma brisa suave de primavera, por outro lado, podia ser uma verdadeira representação do inferno, com labaredas no lugar das árvores e magma borbulhante no lugar da grama.
Mas o mais divertido era que, não importava a situação, os meninos nunca desciam no andar de número 24.

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Perdidos Meninos

Essa aqui é interessante, porque foi a primeira das muitas brincadeiras nesse estilo que nós fizemos depois.

Cenário inicial resumido:
Um grupo de crianças viaja de férias quando, de repente, o avião cai. Eles vão parar no que parece ser uma ilha deserta e precisam se virar para sobreviver, mas acabam encontrando uma garota da selva (eu) que, por seu comportamento taciturno e seu grande conhecimento sobre os segredos da ilha, torna a aventura deles super misteriosa.

Ok, qualquer semelhança com LOST é mera coincidência. Na verdade, eu deveria processá-los por plágio, porque eu tinha só 10 anos de idade quando inventei isso. =P

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Trevas da Mansão

A primeira vez que tivemos contato com um RPG de verdade! XD
Trata-se de um livro de Steve Jackson chamado “A Mansão das Trevas” que eu ganhei de aniversário da minha irmã.
Nesse tipo de livro, o autor te conta uma história em que você é o personagem principal e, a cada momento, ele te permite escolher o seu destino, mandando-o para páginas diferentes de acordo com sua escolha.
Funciona mais ou menos assim. “Você sobe as escadas e vê um corredor comprido, com duas portas à direita e uma à esquerda. Na primeira porta à direita está entalhada a letra A, na segunda à direita está entalhada a letra C, na porta à esquerda, há um B entalhado. Se quiser abrir a porta A, siga para a página 235; se quiser a B, siga para a página 452; se quiser a C, vá para a página 40″
E assim o jogo se desenrola e, dependendo da sua escolha, você pode ter uma infinidade de aventuras e finais.
Mas não contente por viver essa maravilhosa aventura sozinha, resolvi convidar os meus amigos a conhecer o mundo mágico dos livros. Coloquei todos sentados à minha volta na sala da minha casa e comecei a ler a história, dizendo “façam de conta que vocês estão no carro…”. E pluralizando todos os acontecimentos, eu ficava com o livro na mão e lia a história para eles, enquanto lhes dava as opções do que podiam fazer – e, claro, inventava muita coisa que não estava escrita ali.

Nós brincávamos de muitas coisas além disso, mas acho que essas eram as nossas brincadeiras preferidas. Não posso deixar de citar o WAR, o Nonsense e o Perfil, como nossos jogos de tabuleiro. Mas o Perfil meus amigos não gostavam muito de jogar, porque eu já tinha decorado todas as cartas! XD

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