22/04/2018 Artistas que alimentam as esperanças no pop coreano

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Quando comecei a gostar de K-pop e da cultura coreana de um modo geral, uma das coisas que as pessoas mais me perguntam é “Você quer ir morar na Coreia?”, e a minha resposta é sempre “Não”. Um dos grandes motivos para isso é que a sociedade coreana ainda é muito retrógrada em termos de sexismo, gordofobia, racismo, e outros tipos de preconceitos. Nós ficamos sabendo diariamente de reações muito negativas do fãs quando os artistas apresentam qualquer tipo de comportamento “fora dos padrões” e isso nos entristece muito.

Mas, honra seja feita. A Coreia está mudando! Aos poucos, e lentamente (como toda mudança cultural funciona), mas nós podemos notar que os artistas estão se manifestando mais a respeito dos tabus, assim como a própria sociedade está se tornando mais receptiva a essas mensagens.

E, recentemente, alguns artistas e acontecimentos têm alimentado as minhas esperanças numa sociedade mais justa, igualitária, e sem preconceitos, e eu vim compartilhar com vocês essas pequenas preciosidades.

 

Amber – Rogue Rouge: LIFELINE

Para começo de conversa, a Amber em si já é um símbolo da quebra de barreiras. Ela é essa pessoa maravilhosa que, em suas próprias palavras “não tem o estilo tomboy*, porque isso não é só um estilo, é quem ela é”. E, nas últimas semanas, ela veio derrubar uma parede na indústria musical coreana também.

A Amber é uma artista da SM Entertainment, uma empresa mundialmente conhecida pelos seus contratos extremamente injustos e longos, que mantém os artistas sob controle da empresa durante muitos e muitos anos. E o grupo que ela faz parte se encontra atualmente numa situação que os fãs chamam de “porão da SM”, ou seja, quando um grupo é colocado de lado, sem poder lançar nada novo, nem fazer qualquer tipo de promoção, até que a empresa decida encerrar o contrato de vez, ou fazer algo novo com ele. E o grande problema desses contratos é que eles impedem os artistas de promoverem em carreira solo (a menos que seja pela própria empresa).

Mas a nossa querida Amber encontrou uma “brecha” no sistema para fazer aquilo que realmente gosta e nasceu para fazer: música. Ela escreveu suas próprias músicas e, com ajuda de amigos, gravou, editou, fez os MVs e lançou uma Mixtape chamada Rogue Rogue com seis músicas, TOTALMENTE DE GRAÇA, através do SoundCloud. Porque a empresa a impede de promover em carreira solo, mas não pode impedi-la de fazer música sem fins lucrativos, então nossa menina chutou a porta e lançou essas preciosidades (para nosso orgulho e admiração).

E como se tudo isso não fosse o bastante, Amber se mostrou ainda mais audaciosa e lançou um MV que… bem… eu não vou explicar. Vejam por si mesmos:

Eu vi pessoas questionando se isso realmente conta como uma mudança na sociedade coreana, uma vez que a Amber é de Los Angeles e as músicas estão em inglês, mas eu acho que conta sim, justamente por ser uma afronta à sua própria empresa e por estar recebendo apoio de grande parte dos fãs coreanos também.

 

Hyo – “Sober” (Korean Version)

E aqui temos mais uma artista da SM Enternainment que surpreendeu a todos com o seu mais recente lançamento chamado “Sober”, com participação do DJ Ummet Ozcan. A música foi lançada em duas versões diferentes, uma em inglês e outra em coreano, mas a que mais nos impressiona é justamente a versão coreana, porque, além de ter um MV com uma visão claramente body positive, que além de deixar subentendido um relacionamento homoafetivo, ainda nos mostra mulheres fortes e independentes assumindo o controle de suas vidas, a letra ainda dá a entender que trata de uma mulher se livrando de um relacionamento psicologicamente abusivo. Ou seja, vários tabus sendo quebrados de uma só vez.

Como não achei nenhuma tradução oficial da letra em português, vou deixar aqui este vídeo feito por fãs que tem a tradução em inglês da versão coreana.

 

Jackson Wang (do grupo GOT7) – Dawn of us

Aqui vocês podem me perguntar o que um homem hétero, cis, com música heteroafetiva padrão, está fazendo numa postagem sobre quebra de tabus. E eu respondo: “Assistam ao MV!”. O que eu quero chamar a atenção aqui é justamente para o acerto do Team Wang na hora da escolha das modelos e da apresentação delas na “história”. Nós não estamos vendo só mulheres bonitas de biquíni que ficam dançando e desfilando na frente da câmera apenas para “enfeitar” o MV. Estamos vendo mulheres que têm personalidade, que têm uma história, que são livres e estão vivendo as suas vidas plenamente. E aí nós percebemos que a equipe do Jackson transformou ELE num personagem secundário desse MV quando deu a estas mulheres o foco principal. Elas são as nossas protagonistas e nós conseguimos nos identificar com cada uma delas. Eu, particularmente, me senti muito bem vendo isso acontecer diante dos meus olhos, num mundo onde artistas masculinos exaustivamente nos bombardeiam com músicas e vídeos onde as mulheres são apenas acessórios.

O menino Jackson ganhou vários pontos com esse MV.

 

Além desses, existem vários outros artistas quebrando uma barreira atrás da outra, como o Holland (um dos primeiros idols a se assumirem homossexuais antes mesmo do debut) com o seu maravilhoso MV de “Neverland” onde nós podemos presenciar até mesmo um beijo entre dois rapazes (coisa que deixaria a sociedade coreana de 5 anos atrás completamente em choque), e eu gostaria de poder falar de cada um deles, mas além de não ter conhecimento suficiente para isso, o post ficaria muito longo. Então, quem sabe depois eu volte aqui para falar mais sobre eles?

Por enquanto, vamos focar em apoiar esses artistas e mostrar, especialmente para as empresas que controlam o entretenimento coreano, que a diversidade e a desconstrução são os melhores caminhos para uma sociedade melhor. ;)

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