15/04/2018 A Auto-Sabotagem da Ditadura da Beleza

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Venho planejando escrever sobre isso há muito tempo, mas nunca sei exatamente o que dizer, ou como dizer. É difícil colocar determinadas coisas em palavras porque elas mexem com uma parte muito íntima nossa, com coisas que fingimos não existirem, e transformá-las em texto lhes dá uma face, um rosto que nos provoca bastante medo.

Antes de tudo, vamos começar admitindo que a nossa sociedade é uma bosta governada por esses padrões de beleza inalcançáveis em que uma pessoa (especialmente as mulheres) só é vista como boa o suficiente se tiver as proporções consideradas “ideais” em termos de aparência física. Essa é a verdade nua e crua. E é uma coisa cultural, enraizada na sociedade, passada de geração para geração e gravada nas nossas mentes desde o momento em que nascemos, até nosso último suspiro. É algo tão profundo, tão bem plantado e cultivado nas nossas cabeças, que se torna quase impossível escapar, mesmo depois de tomar plena consciência do problema e decidir mudar isso. 

Vejo meninas de menos de dez anos de idade chorando na frente do espelho porque se acham gordas demais. Vejo senhoras de sessenta, setenta anos, deixando de usar short no verão porque as pernas têm muitas varizes. E tenho certeza de que, ao ler essas palavras, na sua mente se formou a imagem de uma típica menininha “mimada” e “patricinha“, num quarto cheio de coisas cor-de-rosa, e de uma senhora dessas consideradas “beatas“, todas recalcadas e submissas.

Então deixa eu te contar a verdade, vem cá. Eu estou falando de mim, estou falando de você, das suas sobrinhas, das minhas amigas, da sua mãe, das nossas colegas de luta, das feministas que vão para a rua com cartazes de empoderamento, das modelos que estão estampando as capas das maiores revistas do mundo, das atrizes de Hollywood, das cientistas do MIT, das atletas olímpicas, das ganhadoras de prêmios Nobel. Estou falando de todas nós, TODAS! Nós passamos as nossas vidas nos auto-sabotando e inventando desculpas esfarrapadas para tentar nos convencer de que não é bem assim.

Faz algum tempo desde que me reconheci como uma feminista e comecei a lutar contra os padrões de beleza. Sempre digo às mulheres que elas são lindas e perfeitas, independente de como se parecem fisicamente, e que a forma do corpo nada tem a ver com o valor de ninguém. Passei a realmente enxergar todo mundo assim. Fui me desintoxicando dos padrões até ser capaz de ver todo e qualquer ser humano como uma pessoa completa e digna, mesmo que a “moda” diga o contrário. Até então, eu achava que era bastante “body positive” (positivista corporal – pessoa que possui uma atitude positiva em relação ao corpo, que procura não se punir ou se diminuir por conta de coisas em sua aparência que não se encaixam no padrão de beleza). Mas pequenos detalhes da minha vida foram se revelando recentemente, me fazendo descobrir que a coisa não é tão simples assim. E, infelizmente, tenho certeza de que a grande maioria das mulheres vai se identificar com o que tenho a dizer:

  • Vejo fotos de quando era mais nova, na praia, e me flagro sentindo falta do corpinho que tinha ao invés dos bons momentos que vivi.
  • Com frequência, paro olhando vitrines de lojas e me dou conta de que estou julgando o meu próprio corpo refletido no vidro, ao invés de admirar os produtos à mostra.
  • De vez em quando, ao passar por uma mulher mais magra na rua, percebo que estive murchando a barriga inconscientemente.
  • Todos os dias, ao escolher a roupa que vou vestir, me preocupo se não vai ficar “marcando” alguma gordurinha.
  • Como o que gosto (e posso, considerando minhas limitações) na hora que quero, mas sempre acabo pensando, momentos depois, se aquilo não vai acabar me fazendo engordar demais.
  • Me peso toda semana. Às vezes mais de uma vez por semana. Digo a mim mesma que é por uma questão de saúde, para controle hormonal, mas chega a ser assustadora a sensação de satisfação que tenho quando vejo que emagreci alguns gramas.
  • Quando ouço alguém dizer que tem problema para conseguir engordar, mesmo que me preocupe com a pessoa e pense que deve ser uma situação muito ruim, a primeira coisa que vem à mente é que essa pessoa tem sorte. É necessário me esforçar pra pensar o contrário.
  • Sempre que penso em ir em alguma viagem/evento/show que quero muito, passa pela cabeça aquela ideia de que eu aproveitaria mais se estivesse alguns quilos mais magra.
  • Já me peguei, muito mais de uma vez, invejando animais porque eles não precisam se preocupar com essas coisas.

Eu poderia escrever um livro sobre todas as pequenas coisas que observo no meu dia-a-dia que mostram o quanto a ditadura da beleza ainda influencia a minha vida, mesmo comigo lutando contra. Não é algo tão nítido e fácil de perceber porque, como disse lá em cima, nós tentamos acreditar que não é verdade, que essa auto-sabotagem não existe e que nos amamos como realmente somos. Mas basta você fazer uma análise um pouco mais rigorosa e imparcial nas suas próprias atitudes e pensamentos para perceber que essa é uma verdade na sua vida também.

Por isso é tão importante o trabalho de conscientização, a desconstrução desses pensamentos desde os primeiros anos de vida, e a nossa luta para tentar mudar a forma como a mídia dita os padrões (que sequer deveriam existir, porque o ser humano não é feito numa fôrma). E a identificação desses pensamentos e atitudes em nós mesmas é um passo extremamente importante para a mudança. Porque não é justo nos sentirmos inferiores, menos dignas, e nos privarmos dos momentos de felicidade e prazer, por não nos considerarmos dentro desses padrões.

A quebra dos padrões não é só uma questão estética, é uma questão de liberdade. Não conseguimos ser verdadeiramente livres enquanto estamos preocupadas em sermos “boas o suficiente”.

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